Batel Soho: um lugar que não existe em um bairro que não há

Um famoso cardiologista que trabalhava no Hospital Angelina Caron, na Região Metropolitana de Curitiba, respondeu ao ser perguntado se gostaria de trabalhar em outro país:

– Nada mais provinciano que querer sair da província.

Nada mais provinciano que tentar negar suas origens.

Afirmá-las sem se fechar às influências do tempo e das novas culturas, no entanto, é o que se pode chamar do máximo do refinamento.

Recentemente, criou-se aqui em Curitiba essa história de Batel Soho. O Batel Soho é uma idéia da Associação de Comerciantes da Região da Praça da Espanha (Ascores) para designar uma região que inclui uns 10 quarteirões em torno da simpática Praça Espanha.

No que me diz respeito, o conceito em si é excelente e eles podem designar o que quiserem daquilo que bem entenderem mas, pessoalmente, não compro a idéia do nome Batel Soho.

Estou certo de que a aposta de sucesso – que será atingido, não tenha dúvida disso, pois a idéia é interessante – gira em torno de iniciativas similares como a Soho Hong Kong, na China, e o Palermo Soho, na Argentina. E também ao redor do deslumbramento que a palavra SoHo parece ter o poder de causar.

O que talvez os deslumbrados de sempre desconheçam é que Soho é um termo que surge da união das iniciais de South e Houston. Em Nova York, SoHo é a região que fica ao sul da Rua Houston. Daí o nome. Soho também é uma badalada região central de Londres.

Creio, porém, que o sucesso do Soho original – ou originais, se considerarmos o de Londres também – se deu de forma orgânica e natural e o que tentamos fazer é o caminho inverso. Coisa sempre meio jacu, diga-se de passagem.

É notável, no entanto, que a Praça Espanha originalmente não fique no Batel. Ela está situada em um bairro chamado Bigorrilho, vizinho ao Batel. Por motivos similares, Inglaterra e Argentina entraram em guerra na década de 80 a fim de descobrir se uns terreninhos perdidos no meio do oceano se chamavam Malvinas ou Falklands.

Mas não imagino moradores do Batel e do Bigorrilho arrancando os paralelepípedos das ruas, diante de uma polícia atônita, partindo para a briga para descobrir a quem, afinal, pertence o Soho da Capital das Araucárias, aos gritos de guerra tais como: “Mim Curitiba! Mim muito-pinhão! Mim muito-pinhão!”

O bairro Bigorrilho, por sua vez, parece ter um nome não muito vendável, ao menos aos ouvidos das imobiliárias, que preferem chamá-lo de Champagnat, para melhor acomodar os fregueses do Batel Soho.

Nas décadas de 1970 e de 1980, o bairro transformou-se em uma espécie de paliteiro das construtoras, que enfiaram nas proximidades de sua principal avenida mais edifícios do que permitiria a sensatez.

Na melhor das hipóteses, o Soho curitibano seria chamado de Champagnat Soho. Talvez este nome tenha sido evitado para esquivar-se da dupla dificuldade: um lugar inventado em um bairro cujo nome autêntico não é esse. Afinal, nem passou pela cabeça de algum comerciante chamar a invenção de Bigorrilho Soho. Assim, estrategicamente, cedeu-se o posto avançado de comércio ao bairro vizinho.

Temos portanto a seguinte situação: um lugar inventado (Soho), num bairro que não existe (Champagnat), emprestado a um bairro ao qual não pertence (Batel). É desse tipo de material que os sonhos de consumo são feitos.

Veja mais:

http://livroseafins.com/

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