Quando a piada perde a graça

FONTE: http://colunistas.yahoo.net/posts/10211.html

Há dois anos, Tiago Leifert virou queridinho da mídia ao transformar o “Globo Esporte” de São Paulo em um programa leve e dinâmico. Ganhou fã-clube, projeção nacional e destaque em outros programas a Globo, além de ser um dos brasileiros mais seguidos no Twitter. O telejornal esportivo, exibido no horário do almoço, ganhou uma bem-vinda dose de descontração.

Contudo, dois anos após estrear no comando do “Globo Esporte”, Tiago Leifert sente o gosto de ser vidraça, algo difícil para quem trabalha na emissora líder absoluta de audiência e está mais acostumado a ser bajulado do que questionado. Apenas neste ano, já arrumou polêmica com seguidores do Twitter (chamou parte deles de “imbecis”), teve atrito com Neto, ex-jogador e comentarista da Band e do Yahoo!, e é um dos responsáveis por tornar o jornalismo esportivo em uma espécie de “CQC”, onde o entretenimento vale mais que a notícia.

Não conheço Tiago Leifert. Nada tenho contra o jornalismo esportivo descontraído. Aliás, isso sequer foi algo criado e desenvolvido pelo jornalista da Globo. Há anos, os canais ESPN apostam em uma linguagem leve, mas sem deixar de priorizar a notícia. O “Bate-Bola”, um dos principais telejornais da casa, sempre foi uma atração descontraída no comando de João Carlos Albuquerque (primeira edição) e de Edu Elias (atualmente na MTV Brasil, no renovado “Rockgol”). Agora, Rodrigo Rodrigues apresenta a edição noturna do “Bate-Bola”, com todo traquejo adquiridos em anos de “Vitrine” (Cultura).

Mas voltemos à vaca fria. Tiago Leifert renovou o “Globo Esporte”. Mérito dele. Profissional competente, que volta e meia uma dúzia de detratores tentam desqualificar por ser filho de um diretor da Globo. Bobagem.

Tiago Leifert

O problema do “Globo Esporte” é outro e muito mais grave para o jornalismo. A atração, por escolha ou vítima de sua escolha, agora tem a obrigação de ser engraçada. E isto não serve apenas para Tiago Leifert. Repórteres e editores de imagem tentam provocar risadas com qualquer assunto, muitas vezes em detrimento da informação.

Outro dia, para dar um ar engraçadinho a uma matéria, um dos repórteres chamou o técnico Tite de Antônio Fagundes. O que ele quis dizer com isso, não se sabe. Ficou claro o nítido desconforto do jornalista e do técnico com a gracinha. Até mesmo Tiago Leifert soltou uma risada sem jeito direto do estúdio. Eu fiquei com vergonha alheia diante da televisão.

Não defendo o retorno de um programa sisudo. Que o “Globo Esporte” continue leve. Está em pauta o esporte, assunto que não deve ser encarado a ferro e fogo. Além disso, a atração é exibida durante a hora do almoço. Mas, de qualquer forma, é um programa jornalístico. Ninguém deve se esforçar pra ser bobo da corte em vez de jornalista.

Eu, que me preparei durante toda a adolescência para ingressar em Engenharia Elétrica e abandonei a faculdade em três meses para cursar Jornalismo inspirado por Juca Kfouri e José Trajano na apresentação do “Cartão Verde” (Cultura), lamento quando um estudante do curso cita o “Globo Esporte” como motivador.

E não adianta discordar. Tiago Leifert é mais um membro da Liga do Bom Mocismo da televisão, que também conta com Luciano Huck, com Angélica, com a turma do “CQC” e até mesmo com Jô Soares. Criticá-los é se expor ao apedrejamento, ou, nesses tempos modernos, perder seguidores no Twitter.

O jornalista é o símbolo máximo do bom mocismo à solta, que deixa a televisão bunda-mole. Por trás das piadas, ficam para trás assuntos sérios, como a negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro e as transferências nebulosas de jogadores. No “Globo Esporte”, tudo é festa. Mais vale uma matéria sobre um pretenso concurso de beleza entre Zé Love (Santos) e Dentinho (Corinthians) do que escancarar o submundo do futebol, que nem está aí pro torcedor.

Não à toa, o grande parceiro de Tiago Leifert é Caio Ribeiro. Aliás, está mais para escada, já que falamos de humor, não de jornalismo. Como Dedé foi de Didi, como Carlos Alberto de Nóbrega é para os personagens de “A Praça é Nossa”. Rei da obviedade, capaz de dizer no meio de uma transmissão de futebol que “é gol se a bola entrar”, Caio forma a dupla perfeita com o apresentador do “Globo Esporte”.

Triste fim do jornalismo esportivo que se meteu a ser engraçadinho. Tenta ser Pasquim e acaba virando “Zorra Total”.

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Um comentário sobre “Quando a piada perde a graça

  1. De fato, já havia pensado algo nesse sentido desde 2010, quando Leifert passou a fazer aquele programa especial da Copa, após as partidas. Não gostei do tom de deboche até então inédito para mim como telespectador: eu já vira veículos de mídia impressa e emissoras estrangeiras usarem de sarcasmo para com o desempenho dos adversários, mas até então nunca havia visto no Brasil aquela atitude tão escancarada. Péssima atitude, porque a nossa seleção teve um desempenho insignificante e tivemos que amargar um fracasso esportivo enquanto Leifert ironizava as outras equipes.

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