4 sugestões de contorno da Praça do Japão pelo Ligeirão Norte/Sul

Com a intenção da prefeitura de Curitiba de colocar em operação o novo ligeirão Norte/Sul ligando o Santa Cândida a Praça do Japão, reacendeu-se a polêmica de como contornar a citada praça sem que se destrua um dos cartões postais da cidade.
Sem invadir o perímetro estabelecido do logradouro, apresentamos abaixo 4 sugestões de trajeto que aliam baixo custo e zero impacto a nossa querida praça.

Vale lembrar que o plano da prefeitura é levar a linha até o terminal Capão Raso, ou seja, qualquer das soluções empregadas são de caráter temporário.

OPÇÃO 1 – RECORTE AO SUL – A Praça do Japão tem formato de meia-lua, delimitada ao sul por uma pequena calçada. A ideia aqui é transformar este trecho calçado em acesso para os ônibus, que poderão contornar a praça sem invadi-la e sem desapropriações.

OPÇÃO 2 – TRAVESSA LANGE – Sem comércio e com poucas entradas residenciais, a travessa Lange é perfeita para a passagem dos ônibus. Bastam alguns poucos ajustes de geometria e mudanças pontuais de mão. A desvantagem é que o ligeirao só poderia parar em um dos sentidos do tubo da Bento Viana.

OPÇÃO 3 – DR. ALEXANDRE GUTIERREZ – A ideia aqui é que os ônibus saiam da canaleta ao sul da praça e voltem através da criação de uma rótula ligando a República Argentina com a Dr. Alexandre Gutierrez. O problema fica por conta da retirada de árvores do atual canteiro que separa as duas vias… mas não mexe na praça do Japão.

OPÇÃO 4 – BRUNO FILGUEIRA – Aqui é forçar a barra, mas pode ser adotado num caso temporário. Os ônibus seguem pela Sete de Setembro até a Bruno Filgueira (uma quadra após a praça). Volta pela Silva Jardim novamente para a canaleta. Custo mínimo mas com impacto no trânsito de carros da região.

Vai ter churrasco na #Praça do Japão ?

Da GAZETA DO POVO

Confesso. Levei um susto logo às primeiras notícias sobre a repartição da Praça do Japão em dois – feito um manju esfaqueado. O sacrifício seria para dar vez aos “azulões”, sinal da nossa pujança nos transportes, prova matemática da nossa falta de bitola para ônibus tão grandes. Acompanhei qual um torcedor o protesto dos moradores, o abaixo-assinado de mais de 2 mil indignados, os desmentidos da prefeitura, chamando o suposto desmanche de “adequação”, algo como um lifting. Só não se queimou pneu na esquina da Sete de Setembro com a Francisco Rocha porque Buda não resistiria.

Fiz propósito de ano-novo de que não abriria minha boca a respeito, nem sob tortura, o que aqui descumpro sem pudores. Como já se alertou, o caso da Praça do Japão não é bolinho. Corremos o risco de assistir aqui a uma edição local da “Estação Angélica”, em São Paulo, 2010, quando os moradores do rico e tradicional bairro de Higienópolis protestaram contra o projeto de um buraco do metrô na região.

Como se sabe, no meio do bate-boca alguém gritou que o local ficaria apinhado de “gente diferenciada”. A chapa ficou quente e a conversa, bem temperada. Em resposta à posição esnobe dos moradores, populares e ativistas brindaram o bairro com um bom churrasco de gato, seguido de pagode e coisa e tal. Virou piada infame do Danilo Gentili. A conversa desceu pelo ralo. O episódio curitibano pode ter o mesmo destino se for encarado como uma luta de classes nas barbas do Batel.

A Praça do Japão fica na proletária Água Verde, mas se vê como Batel, com o qual se identifica na aparência, na escolaridade e na conta bancária. Não é crime. Há casos semelhantes em outras divisas municipais. Parte da hoje rica Vila Isabel, por exemplo, é Portão. Mais que uma zona afortunada, contudo, a praça forma uma daquelas ilhas urbanas que causam arrepios de emoção até no mais insano dos urbanistas. Ali, “a cidade acontece”. Repare.

Apesar de todos aqueles monumentos à riqueza que brotaram do chão – escondendo impunemente a torre da Igreja de Santa Terezinha –, a Praça do Japão não é luxo só de vidro fumê ou pastiches neoclássicos. Não é só pessoal cheio da gaita. Há restaurantes que vendem comida barata e marmitex. Quitandas. Prédios de singles. Edifícios antigos habitados por vovós elegantes, que se viram como podem com a aposentadoria.

Sobretudo, o entorno da praça tem, acredito, um dos únicos casos planetários em que a trágica convivência da ciclovia com a calçada deu certo. É garantia de segurança pública. Não raro, até de madrugada tem gente treinando corrida, rumo ao parque horizontal da Avenida Arthur Bernardes. E onde tem gente tem paz. Onde tem marmitex e padaria também. Toda essa gente diferenciada e seus hábitos peculiares são garantia de tranquilidade para aquela parcela da população que tem salário médio de R$ 11 mil e não vive no Japão, mas nas cercanias da Praça do Japão.

Em tese, a passagem dos “azulões” – não pelo meio da praça, como se disse em meio à grita, mas pelo lado – só aumentará a prosperidade nipocuritibana. Quanto mais variados tipos de públicos, o que inclui quem entra e sai do ônibus, mais cidade.
Para não dizer que não falei das flores, é bom lembrar que não se conhece em Curitiba caso de praça que permaneceu merecedora desse nome depois de receber um terminal de ônibus. É incrível o poder das estações-tubo de transformar espaços de lazer em sombrios locais de passagem. Parece ser esse o fio da conversa – se os ânimos mais exaltados permitirem.

Em tempo. No início da década de 1960, falar (mal) da Praça do Japão era esporte municipal. Está lá nas páginas amareladas da velha Gazeta: dizia-se impropérios contra a lama em dias de chuva. Nos dias de sol, “mais parecia uma cratera lunar”, tudo culpa do prefeito Iberê de Matos, a quem o jornal não mandava afagos. Iberê se foi. A praça se consolidou às pingadinhas, tornando-se um desses locais onde se pode viver junto, tirar foto de casamento, praticar tai chi chuan, ficar de papo pro ar, levar os parentes para conhecer um lugar bonito. Não é pouco. Só nos resta dizer “devagar com o ônibus”, seu prefeito.

Texto: José Carlos Fernandes

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1332704&tit=Vai-ter-churrasco-na-Praca-do-Japao

Batel Soho: um lugar que não existe em um bairro que não há

Um famoso cardiologista que trabalhava no Hospital Angelina Caron, na Região Metropolitana de Curitiba, respondeu ao ser perguntado se gostaria de trabalhar em outro país:

– Nada mais provinciano que querer sair da província.

Nada mais provinciano que tentar negar suas origens.

Afirmá-las sem se fechar às influências do tempo e das novas culturas, no entanto, é o que se pode chamar do máximo do refinamento.

Recentemente, criou-se aqui em Curitiba essa história de Batel Soho. O Batel Soho é uma idéia da Associação de Comerciantes da Região da Praça da Espanha (Ascores) para designar uma região que inclui uns 10 quarteirões em torno da simpática Praça Espanha.

No que me diz respeito, o conceito em si é excelente e eles podem designar o que quiserem daquilo que bem entenderem mas, pessoalmente, não compro a idéia do nome Batel Soho.

Estou certo de que a aposta de sucesso – que será atingido, não tenha dúvida disso, pois a idéia é interessante – gira em torno de iniciativas similares como a Soho Hong Kong, na China, e o Palermo Soho, na Argentina. E também ao redor do deslumbramento que a palavra SoHo parece ter o poder de causar.

O que talvez os deslumbrados de sempre desconheçam é que Soho é um termo que surge da união das iniciais de South e Houston. Em Nova York, SoHo é a região que fica ao sul da Rua Houston. Daí o nome. Soho também é uma badalada região central de Londres.

Creio, porém, que o sucesso do Soho original – ou originais, se considerarmos o de Londres também – se deu de forma orgânica e natural e o que tentamos fazer é o caminho inverso. Coisa sempre meio jacu, diga-se de passagem.

É notável, no entanto, que a Praça Espanha originalmente não fique no Batel. Ela está situada em um bairro chamado Bigorrilho, vizinho ao Batel. Por motivos similares, Inglaterra e Argentina entraram em guerra na década de 80 a fim de descobrir se uns terreninhos perdidos no meio do oceano se chamavam Malvinas ou Falklands.

Mas não imagino moradores do Batel e do Bigorrilho arrancando os paralelepípedos das ruas, diante de uma polícia atônita, partindo para a briga para descobrir a quem, afinal, pertence o Soho da Capital das Araucárias, aos gritos de guerra tais como: “Mim Curitiba! Mim muito-pinhão! Mim muito-pinhão!”

O bairro Bigorrilho, por sua vez, parece ter um nome não muito vendável, ao menos aos ouvidos das imobiliárias, que preferem chamá-lo de Champagnat, para melhor acomodar os fregueses do Batel Soho.

Nas décadas de 1970 e de 1980, o bairro transformou-se em uma espécie de paliteiro das construtoras, que enfiaram nas proximidades de sua principal avenida mais edifícios do que permitiria a sensatez.

Na melhor das hipóteses, o Soho curitibano seria chamado de Champagnat Soho. Talvez este nome tenha sido evitado para esquivar-se da dupla dificuldade: um lugar inventado em um bairro cujo nome autêntico não é esse. Afinal, nem passou pela cabeça de algum comerciante chamar a invenção de Bigorrilho Soho. Assim, estrategicamente, cedeu-se o posto avançado de comércio ao bairro vizinho.

Temos portanto a seguinte situação: um lugar inventado (Soho), num bairro que não existe (Champagnat), emprestado a um bairro ao qual não pertence (Batel). É desse tipo de material que os sonhos de consumo são feitos.

Veja mais:

http://livroseafins.com/